Pular para o conteúdo principal

Laranjeiras Road

 

                                               
p/ S. Bylight


(…) ...com seu livro aberto:
Aqui se pode deixar todos os nossos
pensamentos se expandirem como
uma folha na água; (...)...e era agradável
sentar ali...(...)
(Virgínia Woolf – em o “Passeio Ao farol”)

Sob as hastes à beira da vereda estreita
Algum descampado sugerindo o ócio
Bosques e árvores incendeiam de vida
a manhã
corrompendo a indescritível alegria
cercada antes de tudo por desejos incubados,
distâncias precisas e amistosa solidão.
Ruela para dirigir em segunda marcha.
Irregular. Carruagem saltitante. Barranco.
E cercas. Quantas cercas meu deus!
Haverá paragem neste mundo caduco onde
o solo ainda seja livre?
Onde o mato não daninhe?
E o amor floresça sem gerar espinhos?
Ela não desconfia de armas e flores na tatuagem
não há roseiras á vista e quando estaciona o
carro
sob árvores salva a abóbora vermelha do Sol.
O cheiro que os beijos exalam através das flores
são traduzidos vôos de borboletas e colibris.
Dançarinas violáceas da fauna atlântica: ‘Ninphas
Lidaes’. O preto em contraponto.
A singularidade contagia, emociona.
O Sol incide espreitando espaços
dando vida nova ao capricho interno das coisas
A casa, os móveis, os quadros...
Cada objeto com sua história
e o reflexo estendendo-se no memorial
deixando marcas na construção do dia-a-dia
mobiliando este labirinto envidraçado
do qual não ousamos pular janelas
corrosão que eclode maior que o desejo
Os olhos fechados, os cílios molhados
ante a saborosa e tremulante sensação causada
pelo fiel jardineiro que acaricia tua face
sonhando com rimas, sofismando sozinho
correndo em campos e alecrins, cultivando
flores pra não morrerem em vasos
nem enfeitarem
caixões.
Apenas sopro respiratório, a continuação dos dias
a teu favor
resignação e fascínio, respeito é anestesia
Não há felicidade possível distante do feroz aperto
da paixão
somente farsa cercada por angústia
milhares de possibilidades sem algum acerto
alegoria intumescida, casa antiga em ruínas
tijolos separando bocas
e sofrer é gozo ante a possibilidade de não
sentir nada
e o não vivenciar é pior que morrer
casca que seca em torno do broto
desejo que quer eclodir em isolamento e
lacunas
safras distintas e perdidas para a degustação
mesas distantes e dispersas.
E agora,
ergo os meus olhos além do horizonte
a procura de mim mesmo,
de algo que retorne intenso
derramando esperanças sobre minhas dúvidas
onde por eternidades mãos calosas
coraram e dimanaram sobre o clima do
Mediterrâneo:
Citrus Sinensis migrando à Citrus Arantiun
Fruto chinês? I-ching? Confúcio? Citrus amargo
referente à gripe do corpo
não ao liberto influenza da paixão
nosso amor invernal como a Laranja
amadurecendo a exatos 13°, enclausurado na memória
sem superstições, sem ácido, numa tarde onde
estamos juntos
num espaço-tempo que permanece
e enfim,
frente à santa inquisição de teus medos
queimei-me vivo
e não encontrei em teu reservado jardim
mais que poucas lembranças
rosas espinhosas
e nenhuma
laranjeira.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Ante a Passágem de Helena K.

Ante a Passágem de Helena K. ao som de “Gaivotas” do Blindagem I A manhã chega Os pássaros cantam Folhas balançam Botões florescem A erva cresce A erva azeda Os frutos caem Estelas somem A maré muda A lua enche O dia nubla O Sol não surge A vida corre Os homens passam Os rios viajam Tudo flui Acelera o pulso A vida stagna O sonho enfebrece Não posso dizer: _ Lázaro, vem! Mas estás viva Vida em palavras Pequenas asas luzes acesas A província mais pobre Choram hai-kais lamentam tankas Eu balbucio: amor meu ! A tarde se foi nós vamos correr Vamos cantar que alguém amado foi realmente alguém... e morreu! II. (póstumo) (†)...E para a Primavera deste nosso amor Sorrisos encantados onde você for Tão bela e rara, Que o meu coração enfebreceu ao som de um tambor Que bate forte Que bate dentro Trazendo a sorte E o momento De estar atento a tudo o que grita em meu peito Aceito o fato e te enfeito em minha memória Pra vencer o tempo... (...

Sobre Corações Maciços (Poema Espelho)

"Se alguém chegasse à minha despretenciosa cabana, teria lhe oferecido as boas vindas com uma recepção tão suntuosa quanto um homem pobre pode oferecer." (Thomas De Quincey - em 'Confissões de um Comedor de Ópio'). Sobre Corações Maciços (Poema Espelho) Para Thiago Jugler &Isabela Socrepa, Iko Vedovelli & Evelim ...construir pedaço a pedaço num coração em cores e tijolos vermelhos incandescentes brilhantes brilhantes incandescentes vermelhos tijolos em cores num coração pedaço a pedaço construir...

As Três Pedras I (epístola à Pátria)

“Embora seja este o discurso, sempre, os homens tardam, não só antes de ouví-lo, como logo que o ouviram; pois, mesmo que todas as coisas aconteçam de acordo com este discurso, mostram-se semelhantes a inexperientes ao experimentarem tais palvras e atos que eu persigo segundo a natureza, distinguindo cada coisa e mostrando como ela é. ‘Mas os homens ignoram o que fazem depois de acordarem, como esquecem o que fazem dormindo” (Heráclito) As Três Pedras I (epístola à Pátria) Foram tão bons os sonhos juntos amiga, antes que a realidade se interpusesse à nós. O futuro então traçado em rumos claros, dispendio do ardor comum: a efervecência. Pra então, se desdobraram os desastres o real rompendo em bufa ária esnobe, e com a imágem distantes destas uvas, destes maltes as Alices, e as Isoldas estão geladas o amor tecido e alinhavado, acabado. Este é o nosso tempo, amiga, as pessoas já não sonham juntas contrários os não resignados as lutas poucas os medos muitos...