Pular para o conteúdo principal

Algum Saara


    Sob um Sol flamejante, no momento em que iria desfalecer em meio ao deserto, um ditoso peregrino, pródigo no conhecimento das ciências, como insistente afiançava, contrariando as recomendações do chefe da caravana, afastou-se para pesquisar dunas além. Noite abrilhantada sem lua ou vento. Embriagou-se de estrelas, areia e lembranças amorosas. Diluiu-se em torvelinhos e emanações e quando deu por si, havia o amanhecer transbordando.
    Em vão, tentou discernir o caminho que havia percorrido e, com o surgir de uma pequena aresta do astro diurno, no horizonte oposto a última estrela desapareceu; não podendo esperar, devido as escassas provisões: a caravana partiu e ele ficou gastando amanheceres  e entardeceres  em busca de um ponto de referência que não mais havia.
   Caminhou até não sentir mais as pernas, os braços e até mesmo os pensamentos. Por incontáveis vezes, implorou humilde e agonizante pela intervenção de 'Alah'. Padeceu, alcançou uma duna que mais parecia uma montanha, zangou-se e já em profunda traição da carne, bradou: 'Valham-me oh demônios, mestres dos desertos, das serpentes e do mal... minha vida por uma botija d'água..'
   Assim, como constelações quedam distantes de nossos olhos e diagnóstico, de um resíduo de segundo ao outro, atrás do homem a brisa assobia, areia gira e um redemoinho levanta, grãos suspendem-se e assentam. Repentino o cone some, e em seu lugar, jaz uma grande bolsa de água, sobre qual se atira o peregrino inundando-se com o precioso líquido. Bebe. Farta-se regalado em desperdício.
   Saciado, feliz, pegou a bolsa e saiu desnorteado. Setenta e sete dunas depois, novamente sem água devido a bolsa conter pequenos furos, já ressequido e frustrado, voltou ao exato ponto onde se extraviara da caravana, julgou em meio ao delírio, ver e ouvir pequenos redemoinhos gargalharem numa duna ao longe. A morte seguia seu rastro, deixando marcas indeléveis, numa perseguição paciente firmada no tempo.
   Findou perplexo com 'Alah', resignado, o Sol ardendo-lhe os ossos, o cerebelo borbulhando, louco, cego... não sabendo que, quando voltou-se para apanhar a bolsa, perdeu o rumo, e sem foco, deixou-se seguir perdulário, numa falsa avidez satisfeita, rumando para o lado oposto da trilha em que solitariamente percorrera por dias e que, logo após a enorme duna que o acovardara, teria conduzido-o incólume a um paradisíaco oásis. 
   As vezes, para sobreviver, precisamos dispensar qualquer ajuda seguindo firmes com nossos olhos, julgamentos e   passos próprios.




Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Uma Pequena Canção de Repúdio a Demora e ao Silêncio (só mais uma ode a liberdade)

Uma Pequena Canção de Repúdio a Demora e ao Silêncio (só mais uma ode a liberdade) ... olhem, a morte descortinou-se de vez: foi no dia em que eles mataram a liberdade e nós ficamos aqui calados este nosso silêncio foi um dedo no gatilho em meio ao Sol despedaçado foram tantas as imagens que chegaram neste dia escurecido que nossos olhos estão cegos de vergonha pois restamos aqui parados nosso espírito indigente colocou-nos aqui tão vis, tão juntos e vencidos que assistimos a vida agonizando com a menina ali ao lado vendo as forças que se alimentam dos seres livres impondo um outro (e)Estado assustada neste dia, em que juntos assassinamos a liberdade momento em que nossa servidão e  morte descortinaram-se de vez... "Pois que a vida e a liberdade devem ser antes de tudo, a essência mais profunda que há dentr...

Sobre homens-pássaros e seus sonhos com asas

by DaniCircoSolar SOBRE A RESISTÊNCIA DOS CARCARÁS I - for Corbélia Nossos sonhos desconhecem o fracasso o mais alto deles é o pássaro cujo nome é esperança o íntimo da dignidade ânsia por justiça, vida e liberdade sob monturos e escombros sempre a renascer das cinzas simplicidade de mãos dadas nossos corajosos olhos  ante a face do gigante são só pássaros que gritam: ...nossos sonhos desconhecem o fracasso... II - para Villa Teus ideais desconhecem o declínio e o mais alto deles  da Democracia brota, voa rotas de palavras a história asas em tuas mãos buscam  os tijolos onde brilharão afrescos  mundo onde tiranos enegrecem o presente, desfiguram o passado transformam monstros em heróis pois que estúpidos-assassinos  em sua cegueira ignoram  a guilhotina do futuro. III - for Ruhan Teus sonhos desconheciam o fracasso e o mais alto deles era o pássaro e em meio a tempestade...

A Stranger on Earth (1997 Remaster)