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Sob o Ópio


Sob o Ópio
P/ Virgínia Wolff, Charles Baudelaire e Rimbaud

Ao som de Beatriz (Chico e Edu Lobo)

“Perdi-me dentro de mim porque
eu era labirinto.”
(Mário de Sá Carneiro – em ‘Dispersão’)


¼
Conforme era engolida por um turbilhão de lembranças vertiginosas
em tumultuosa e pujante orquestração,
sentia crescer além das entranhas uma furtiva e enorme
serenidade.
Lutava para fixar-se lá fora
Mas num refluxo abria os olhos e tinha a certeza
De que
Dentro de si
Por mais obscena e turva que fosse
A bússola se quebraria
E placa alguma evidenciaria a direção
Ou
o caminho,
Quem ali penetrasse e bebesse,
fatalmente se perderia.
½
Havia dor insuportavelmente gélida. Era o início: papayer somniferum.
Os tempos foram sombrios e longos. Tão longos que até mesmo a dor,
em meio a um desértico inverno interior,
passa a ter belos olhos
e um hálito amigo.
¾
Tornou-se inútil vedar portas e janelas,
É dentro de nós que colônias de micro organismos
Elaboram a definitiva partitura
Marcham fúnebres e esperam ávidos
Pela deliciosa ceia.
Já não sentimos nenhuma informação
se revelar no corpo, a papoula murcha
a morfina vasa
e
num último lampejo
eu ouso sonhar com arquipélagos deslumbrantes
com antropófagos vorazes e retintos
saciando-se
banqueteando e ojerizando com sorrisos ensangüentados
a delicadeza inútil dos hipócritas.
Tendo a indubitável certeza de que fazem ruidosa
Inveja aos próprios vermes.
1
No fim da tarde, sete doses de ópio trazem sombras,
Eras e a esperança de que a dor parta,
De que dentro de nós um Sol surja,
E de que seja doce
À noite
Que
Despenca
Além
Da
Noite.

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