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Filmes Solitários II (rapsódia)





Filmes Solitários II
(rapsódia)
p/ J.L. Borges, Caio Fernando Abreu, Wizard Al-Bab & Wilson Bueno.

(...) Numa gaveta da escrivaninha
entre rascunhos e cartas,
interminavelmente sonha o punhal
seu singelo sonho de tigre.(...)
(Jorge Luis Borges – em ‘O Punhal’
da Obra “Evaristo Carriego” - 1930)

Um dia destes, sob frinchas de luminosidade que perpetravam os degraus, André contou-me sua magnífica ‘História de Borboletas’, destas que por entre furos nos casulos rompem à ordem estética, transmutando crisálidas assustadas em rufos de asas vertiginosas, vidas parcimoniosas em profunda comunhão com o destino.  Simples. Delicadeza pura e silenciosa. Misteriosas. Inexauríveis: anseiam alma, visceralidade essencial, volátil, fugidia como naftalina. Em seus recônditos não subsistem cantos antigos e nem proliferam passadismos ocultados em marcas de mofo, poeira e abandono e é tácito que saber, sentir, sonhar é risco inconsútil e memorizar por vezes pode ser penoso. Corpus poeticum.
O compêndio de biologia em que miro mil gravuras contém todas as informações do infinitesimal ‘Aleph’ de um mundo: A Galáxia de Gutenberg.  Prateleiras cósmicas e nestas, bilhões de volumes amarelando ante o descuido de um bibliotecário estrábico, surdo, alcoólatra e louco, que tateia as máscaras da alma, aturdido lambe as estampas tingidas em busca da libertação da mente. Entre tanta sujeira, colapsos de um céu turvo empoeirado. A solidão consome o pouco de luz que rompe às clarabóias. A transparência é comprometida pela depressão e pelo sono. Voando míopes e sem rumo, produzindo um sibilo melódico e meticuloso, andorinhas se debicam em nuvem escura enquanto de teu emaranhado cabelo vertem milhares de borboletas azuis. ‘Morpho Helenor Violaceus’. Dois ou três centímetros e o infinito. O infinito.
Raiz de tudo o que é longínquo e triste, os relógios jamais tomam o rumo contrário, você busca mais dores, comparações no passado, tempo intelectual interno suspenso sob escravidão emocional, havendo a cada descuido e paixão: dor extensa e inexplicável. Então, o velho guarda-livros cansa facilmente e busca o corpus necessário à superação. Leste-oeste; norte-sul; oriente-ocidente e ‘Beatriz’ de perfil.
A tragédia doou-me compulsivos livros deprimentes. Alternei entre paisagens satíricas e constatações impuras, saudosos flash-backs esquizofrênicos extraídos da mais acriançada loucura. Escrita cuneiforme. Ilegível. Entediante.   Intraduzível e pervertedora. Tatuagens lentas. Espíritos torturados e corrompidos. O choro. O passar das coisas. O paraíso: qualquer lugar jamais pisado. “Só se pode encher um vaso até a borda. Nem uma gota a mais.”
Matei algumas gaivotas brancas em teus sonhos azulados. Afoguei crianças famintas em barris de ópio. Todos abandonados e sem guardiões. Os ‘elementais’ morrem quando se ausenta o espírito puro nos sonhos coletivos. O lúdico desaba, o sensitivo se amargura e a mão pesa sobre o papel que a rejeita.
Inocentes e sem medo. Livres de mitos. Entre o dormir e o acordar. É quase meio dia.
Visito sete luas. Sete estrelas, como sete são os chifres do dragão. Queremos tudo: o jardim onde resplandecem acácias, as gotas porosas em que brotam toda sorte de sementes delicadas, teu atríolo de penugens negras e molhadas por visitas constantes. Os momentos selvagens e nenhum pouco sentimental e a realidade ansiamos por dominar a realidade: animal impávido, garanhão imenso esmiuçando aos cascos os corações ordinários. Um blues. A pedra fundamental da dor. Não abandono a idéia de teu regaço. Um pântano misterioso além da bruma. Constelações que despencam vespertinas. A trezentos e cinqüenta mil anos enterramos nossos mortos. As palavras submersas deságuam. Nossas mentes anseiam por toda a sabedoria do Universo. Cem bilhões de nós já morreram. A cobiça é luciférica e qualquer desejo é o mais antigo dos pecados. Arquitetos do impossível: pobres de nós meros mortais, divulgadores repetitivos do nunca, devoradores arbitrários de mundos.
Como na canção: no perdemos. A distancia mostrou-se um muro invisível. Mas o Universo sempre conspurcou em favor da resistência do inato e do surgimento da consciência. O Império do adquirido. A era da matéria. Da incerteza. Dos corpúsculos conduzindo partículas em frisson. Átomos se unindo, se despedaçando e quando, se me cego, o corpo é terminalmente o refúgio de toda imagem. Vinte e um gramas a menos e o punhal mostrou seus dentes. O velho tropeça, tomba. De suas mãos a lamparina cai, cai, cai... E o mundo cai com ela. Todo o paideuma de infinitas Alexandrias incendiadas. Tenho febre. Dedico-te um soneto. Imprimo em off-set. Restauro o método como aparo minhas incertezas. Nada on-line ou eletrônico. Moras nos doze andares do Edifício Coração de Mim Mesmo. Toda a dúzia que percebi habitarem sobre teus tênis. Colho doze rosas. Grito meus dodecassílabos. As andorinhas devoram as borboletas, eu devoro com olhares as andorinhas e agora sei, debaixo de uma escada que ainda não encontrei existe um ponto, em ‘Lazward’: uma cidade azul além da ‘Rua Garay’, um ‘Além do Ponto’, onde somente areia virgem recebe os pés de André, que não está louco, mas voa incólume dentro do aparelho digestivo de milhões de andorinhas.

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