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Recado para Ana Z.


Recado para Ana Z.

I
(sobre corsários e mini-blusas)


Nunca conversamos Ana, mas tenho algo a te dizer:
Entre o perceber e o despedir
há meia madrugada e um sonho, uma sólida dor
e no vazio do porvir: insegurança.
Há um olhar triste e vago em você, Ana
um vegetar quase suicida, talvez e enfim
o que não é o constatar? O admitir? O Descobrir
anti-histórico e estuprador
da transitoriedade de tudo
inclusive da verdade e do amor
que em claro riste em mim
soa quase agressivo e quem sabe terminal
ruas e noites que enquanto ressono
te pregam e desatam em peças
e o que é o sentir em ti
esta repulsa irresistível por ser dama
trauma irreversível e aprisionado
paixão desatada, cinta-liga e sinto muito
E o que é o amar, Ana?
Hoje, apenas um rosto desconhecido na noite.
Um beijo jovem. Um nome esquecido. Uma insípida
embriaguez matinal. Sinais de “Navalha na Carne”.
Um vale temporal nos separa
Elevo minha Lee, ponho chapéu
e duvido que ainda nos beijemos
talvez se conversássemos um pouco
neste tempo cronometrado, apurado
o relógio correu: 14 e 30 horas
já vais zombeteira pelo meio-fio
Passeio Público? Generoso? Santos Andrade?
Visconde? lido 1 ou 2?
Às 18 horas volta pra casa
arrepia seus rebentos na vara de marmelo
limpa a casa, faz comida, é comida e não geme, pensa:
_Puta que é puta não goza nem com o marido.
E dorme. Dorme um sonho de justo. De filhos corrigidos. Marido precoce e fêmea jamais saciada. Dorme, dorme e sonha com a rua, com
os estranhos e suas bizarras manias de sarjeta: _Minha filhinha! Minha mamãezinha! Minha irmãzinha! Quanto pecado gostoso meu deus! Sapatadas na bunda! Uns tapas na boca! E o modo delicioso com que fazem-na sentir-se a mais feliz e execrável das mulheres.

II
(sobre lavras e erosões)

Feitos grãos uniformes,
vivemos num tempo endurecido de homens.
Esmagador com tal eficácia,
que o que vemos por aí circulando,
são seixos agudos e monolíticos;
e o mais comum de notar,
são pedras se unindo para gerar outras mais,
numa lavra distante do conhecimento,
extraídos os homens comuns, os corpos vendidos.
Constelados somente alguns, os mais aguerridos,
dentro da máquina o algoz, o patrão e o dissídio.
Vento que dura e se move veloz, mas não há abrigo,
das águas que lapidam os lauréis inúteis. Vivas!
Vivas! De homens endurecidos num tempo
de vívidas e inteligentes mercadorias sem valor,
estocadas sob a forma de grãos invariáveis
de coisas visíveis
mas
inúteis.

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